Vampiros: evolução ao longo dos séculos

Olá, Freaks!

O sobrenatural é algo que existe no imaginário popular desde o início dos tempos. Afinal, é o desconhecido, aquilo que não pode ser explicado. Logo, atraiu a atenção de filósofos, cientistas e religiosos em diferentes períodos históricos.

Os primeiros relatos iniciaram-se no final do século XVII, com destaque nas primeiras décadas do século XVIII com a queda das perseguições as Bruxas. Ora, se já não fazia mais sentido perseguir e queimar mulheres inocentes, porque não ir atrás de novos seres sobrenaturais, ou melhor, atrás dos que já estavam mortos? Pois bem, como devem imaginar, foi ai que nossos vampirões entraram em cena, e passaram a ter cada vez mais espaços nos jornais e em correspondências oficiais.

Ressaltando que primeiramente foram chamados de ”mortos mastigadores”, e posteriormente, ao longo das décadas, receberam a denominação de vampiros. Até que gradativamente, foram ganhando mais espaço não só nos estudos de homens estudiosos e religiosos, mas também na literatura e com o tempo, no cinema. Tornando-se uma das criaturas sobrenaturais mais famosas na ficção.

”Nosso contínuo interesse pelos chupadores de sangue que desabrocharam na

noite é óbvio. Não há nenhuma outra criatura no mundo do horror que tenha causado

mais medo, mais pavor e, no entanto, mais fascínio do que o vampiro” _ MELTON, 2008, p. XXIII

Mas então, de onde será que vieram os vampiros? Primeiros relatos.

Sem mais delongas, vamos a história! Tudo começou no século XVII, na França, através das cartas de Pierre Des Noyers. Nelas, o autor relatava sobre mortos-vivos que mastigavam suas vestes e levavam seus parentes à morte. O burburinho acerca do relato foi tanto, que o próprio Pierre levou o assunto ao Le Mercure Galant (revista francesa literária publicada pela primeira vez no século XVII, que atualmente faz parte do grupo editorial Éditions Gallimard), na última década do século XVII.

Des Noyers não foi o único a publicar na revista, Marigner também trouxe seu relato, onde acreditava que vampiros eram nada menos que demônios ou almas condenadas ligadas ao nosso mundo. Em sua opinião, era uma forma de castigo divino. Podemos notar que em menos de um século os vampiros passaram de uma enfermidade a castigo divino, de algo natural a algo sobrenatural com associação ao demônio.

O primeiro contato dos relatos entre o ocidente e o oriente europeu ocorreu a partir dos Tratados de Carlowitz (1699) e de Passarowitz (1718), nos quais a Áustria dos Habsburgos (família nobre europeia que foi uma das mais influentes na história da Europa nos séculos XVIII ao século XX) conseguiu a posse da maior parte da Hungria, do norte da Sérvia e da Bósnia e da Valáquia. Durante esse período surgiram muitos relatos sobre mortos-vivos que estrangulavam e sugavam o sangue dos vivos. Até que anos depois, já circulavam diversos relatos de mortos-vivos que supostamente levantavam-se dos seus túmulos para atacar os vivos, nas regiões da Romênia, Morávia, Silésia, Hungria e Polônia. E é claro que por conta disso a população ficou assustada e inquieta, especialmente entre os pensadores da época, pois isso remetia a tudo aquilo em que não acreditavam: superstições e crendices.

De certa forma, pode-se afirmar que os casos de Peter Plogojowitz e Arnold Paole foram os responsáveis por mostrar a força que a figura do vampiro causava no imaginário da população naquela época. Em ambos os relatos, tanto Peter quanto Paole, voltaram dos mortos e assassinaram pessoas. Mas o que deu mesmo credibilidade a história foi quando médicos locais constataram que estavam realmente mortos, e a solução apresentada foi a de decapitar e queimar os corpos. Foi graças ao relatório Visum et Repertum (antiga expressão que tornou-se lema dos peritos e que significa examinar minuciosamente e documentar exatamente o que viu) realizado no caso de Paole em 1732, que ao chamar a atenção da imprensa, resultou na propagação da lenda do vampiro por toda a Europa.

Belos, fortes e influentes: Os Vampiros na literatura.

Em 1748, surgia o primeiro texto literário sobre os vampiros. Der Vampir (O Vampiro), escrito pelo poeta alemão Heinrich August Ossenfelder, é narrado por ninguém menos que o próprio vampiro, o qual procura seduzir uma jovem adepta do cristianismo. Já os poemas conhecidos como A Noiva de Corinto, de Johann Wolfgang von Goethe, Christabel de Samuel Taylor Coleridge e Carmilla de Sheridan Le Fanu, também retratam de sedução, porém os dois últimos retratam vampiras femininas que seduzem mulheres. E por último, John Polidori, secretário de Lord Byron, publicou o conto O Vampiro, em 1819, tornando-se um grande sucesso, digno de adaptações para teatros de toda a Europa.

Porém, foi em 1897 que o mito do vampiro foi unificado e estruturado em uma só imagem, com a criação do romance de Bram Stoker, Drácula. O livro não trazia apenas uma história sobrenaturalmente intrigante, mas também seduzia os leitores, com um vampiro tão elegante e charmoso, isso não tem como negar. Além de aparentar ser um grande manual sobre quem são os vampiros, como eles vivem e também como fazer para matá-los, já que o autor utilizou a figura do famoso Vlad Tepes (1431-1476). Stoker foi responsável por abrir as portas a outros autores escreverem seus romances sobre vampiros, e dentre tantos que se aventuraram nesse mundo sombrio, podemos citar outro destaque: Anne Rice, a Rainha dos Vampiros, que ao criar vampiros tão humanos, sentimentais e ao mesmo tempo tão sombriamente imortais, deram outra face ao universo literário vampiresco. Seu primeiro livro, Entrevista com o Vampiro (1976) foi uma de suas obras mais aclamadas até os dias atuais.

Mudando um pouco de gênero, quem se interessa mais pelo científico, pode optar pelo livro do “Vampirólogo” Paul Barber que ficou famoso por ter feito uma justificativa biológica do vampiro em seu livro de 1988 chamado “Vampires, Burial & Death: Folklore and Reality”. Nele, Barber faz uma analise sobre os processos científicos da putrefação dos corpos, além de transcrever e traduzir os relatos oficiais para a língua inglesa, além de utilizar o termo vampiro de forma mais restrita, referindo-se a eles apenas por Vampir ou Upir, o revenant eslavo. O pesquisador atem-se bastante à aparência que os vampiros deveriam possuir, segundo os relatos, sendo bem diferente do vampiro lindo e sedutor da literatura. Descreve também que a mordida que conhecemos atualmente é bem diferente da que era apresentada no folclore, não sendo direcionada ao pescoço, mas sim ao peito. Outros fatores encontrados em sua obra são o pulo de um animal sobre o cadáver, o voo de um morcego e até mesmo o roubo da sombra. Certamente, é um livro interessante para aqueles que gostam do assunto.

Por último, temos o professor de Literatura e Civilização Germânica, Claude Lecoutex, responsável por escrever o livro A História dos Vampiros: Autópsia de um mito (2005). Nele, o professor tem como foco principal as particularidades que existem em cada região estudada, para comprovar que não existe uma única lenda sobre os vampiros, mas sim diferentes tipos de mortos-vivos vampíricos, cada qual com sua característica distinta. A cada página podemos conhecer um pouco mais sobre os vampiros de vários lugares do mundo, como os vampiros sedutores da Polésia, conhecidos como Dux-Ljubovnik; os Latawiec da Polônia, que seduziam mulheres com seu olhar, causando o definhamento e falecimento da vítima; e a Romênia, com o Zburator, um rapaz alto e esbelto.

Outro fator marcante em seu livro, é que o professor de literatura resgatou lendas da época medieval, para mostrar que o mito do vampiro não foi criado sem fundamentos no final do século XVII e no começo do século XVIII, mas que já fazia parte de um conjunto de lendas que existiam desde a antiguidade e que foram modificadas ao longo dos tempos, e que devido aos relatos passados de tempos em tempos, acabou se consolidando apenas em uma só figura: a do morto-vivo que caminha e se alimenta dos vivos.

Luzes, Câmera e Ação: As criaturas sombrias mais fantásticas do mundo cinematográfico.

Coube a literatura o papel de transformar e moldar o vampiro até o século XIX. Mas foi a partir do século XX que o cinema consolidou a imagem dos bebedores de sangue que conhecemos atualmente. Podemos citar grandes filmes e séries que influenciaram sua imagem na cultura pop. Como em Nosferatu (1922) e Drácula de Bram Stoker (1992), nas visões dos diretores Marnau e Coppola. Os dois filmes tem uma diferença de 80 anos entre si, mas retratam muito bem como a imagem do vampiro evoluiu ao longo dos anos no mundo cinematográfico, onde ambos trazem marcas de sua época, representando os meios e anseios de suas sociedades.

Não teríamos como fazer esse post sem mencionar o Drácula (1931) de Tod Browning, interpretado por ninguém menos que Bela Lugosi. Marcado como o primeiro longa de terror da Universal, ficou na história por ser aquele que repaginou para sempre o mito vampiresco, com monstros, seres sombrios que comandam forças obscuras, castelos com torres pontiagudas, uivos durante a lua cheia, dentre outros… Tudo isso surgiu com o primeiro filme do Conde Drácula. O roteiro seguiu fiel ao filme, e fez com que até hoje, em pleno século XXI, continue sendo reconhecido mesmo após tantos anos.

Lugosi ficou conhecido como a personificação encarnada do Conde Drácula, com seu sotaque húngaro carregado e olhar penetrante, deixou o legado marcante para todos os que interpretam o personagem de Stoker na atualidade: pausas entre entonações, maneirismos gestuais e o ar aristocrático. Fora a sedução e o terror causado simultaneamente com sua interpretação.

A obra de Anne Rice foi responsável por dar o pontapé inicial nos vampiros jovens, sedutores e humanizados que conhecemos atualmente. Tudo isso devido as suas Crônicas Vampirescas, que juntamente com o filme de Entrevista com o Vampiro, trouxe a tona um ser atormentado que procura compreender sua natureza e razão de sua existência. Sim, estamos falando do Louis (Brad Pitt), que enxerga sua existência como um fardo, por ser uma criatura que segundo ele, é vil. Em contra partida, temos o elegante, carismático e com grande poder de sedução, Lestat (Tom Cruise), seu criador, e que diferentemente de Louis, se delicia com cada momento que a imortalidade lhe proporciona.

Foi com a junção da definição do vampiro de Bram e a mudança de imagem e personalidade criada por Anne, que os vampiros evoluíram no imaginário popular e mergulharamde vez na cultura pop. Assim, surgiram os vampiros atuais de Diários do Vampiro (J.L Smith), de True Blood (Charlaine Harris) e da saga Crepúsculo (Stephanie Meyer), que apesar desse último ser uma controvérsia nos mitos do vampirismo, não deixou de ganhar uma legião de fãs pelo mundo todo.

Fonte da capa: https://cutt.ly/bvkFClL

Referências: Monografia de Gabriel Elysio Maia Braga, CONSIDERAÇÕES SOBRE A FIGURA DO VAMPIRO E O SOBRENATURAL NO SÉCULO
XVIII A PARTIR DA OBRA DE DOM CALMET (1672-1757), https://cutt.ly/yvkGfdV;

Por BBC, Vampirismo: a doença fatal que matou centenas de pessoas, https://cutt.ly/TvkGSAl;

Por Café História, Vampiros: um mito em constante reinvenção, https://cutt.ly/BvkG5sD;

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